Capítulo 6 - O Tempo e o Espaço


O Herói Azul

© Janine Milward


Capítulo 6


O Tempo e o Espaço


“Sinto algo me chamando lá de fora, nesta época do ano... é que as mangueiras estão em flor e seu perfume doce, quente, muito quente, espalhando-se no ar chega até a mim, me chamando lá de fora, me fazendo aproximar, cheirar, tocar, até ficar tonto de felicidade.”

“Desde ontem à tarde que também me chama o perfume das flores das jabuticabeiras... as abelhas estão em festa, zoando o tempo todo por entre os finos galhos dessas árvores tão generosas, coalhadas de pequenas flores esbranquiçadas, coladas, unidas aos troncos esgueirados, contorcidos, delicados.”

“Ora, vejam só! Minha mãe já colocou a mangueira d’água escorrendo todo o tempo juntos às raízes das pitangueiras! Também as pitangueiras estão se preparando para abrir em flores, sorrindo com suas flores brancas e suaves, prenunciado a vinda de seus frutinhos vermelhinhos e saborosos!”

“As flores rosadas dos pessegueiros já apareceram! Quantas novas flores! Quantos frutos a virem em breve!”

“Mango chutney, geléia de jabuticaba, geléia de pitanga, doce de pêssego... hummmm, gosto tanto quando minha mãe faz torta de pitanga! E o bôlo de nozes e ameixas com glacê branco enfeitado com flores de pessegueiro! Hummmm....”

E assim, ia o Herói Azul passeando por entre as árvores do Sítio, vagueando e vagando, caminhando e deixando o pensamento voar solto, alegre e fagueiro!.....................................................................................


- ‘Olá, dona abelha, voando direto para as jabuticabeiras encontrar suas companheiras?”

- “Sim, sim, Herói Azul, estou com verdadeira pressa, não quero perder aquele mel gostoso, não quero perder a dança zoante, não quero perder nenhum momento dessa festa!” – a abelhinha parecia mesmo muito apressada, não queria mesmo conversa com ninguém.

- “Você sentiu de longe o perfume das flores, não foi?”

- “É claro, você não sentiu? “

- “Sim, mas me diga uma coisa, dona abelha, o perfume é fácil de sentir... mas quando se trata apenas da frutinha... assim como quando as jabuticabas já estão maduras e aparecem as centenas de maritacas vindo bicá-las e chupá-las... assim como os tucaninhos surgem do nada.... como é que tudo isso acontece no mundo de vocês, no mundo dos bichos?” – o Herói Azul parecia não ter pressa e tentava puxar conversa com dona abelha.

Porém dona abelha não estava mesmo interessada no assunto, qualquer que fosse, a não ser em ir voando zunindo, zoando, direto para as árvores gêmeas de jabuticaba! E lá se foi ela, deixando o Herói Azul sem nenhuma resposta.

- “Não pude deixar de ouvir sua pergunta, Herói Azul!”

O Herói Azul não tinha visto dona formiga que andava junto com suas companheiras, em fila indiana, carregando folhinhas tenras das roseiras do canteiro favorito de sua mãe, o canteiro das rosas!

- “Minha mãe não vai gostar disso, dona formiga, ela já lhe disse que não é mesmo para ficar cortando as folhinhas das roseiras... pobres roseiras, assim elas ficam fracas e não dão rosas!”

- “Bem, também eu gosto de ver as rosas iluminadas pelo sol em suas cores lindas, em suas pétalas delicadas... não, rosa, rosa, eu não como, gosto mesmo é das folhinhas tenras, verdinhas, saborosas, maravilhosas... que fazer? Temos que comer, temos que nos alimentar! Você não ficou zangado com a abelha que retira o mel das flores novinhas das jabuticabeiras... por que então implicar logo comigo, conosco, formiguinhas? - dona formiga não deixava de seguir seu caminho, sua trilha, enquanto ia falando e resmungando.

- “É verdade, você tem razão, também nós, humanos, temos que comer, temos que nos alimentar e certamente adoro ir até a horta colher cenouras, beterrabas, alface, agrião, couve, salsinha e cebolinha, espinafre, almeirão...."

- “Viu? Por acaso você perguntou aos legumes e hortaliças se eles querem ser comidos, perguntou?”

- “Bem, perguntar não perguntei, mas...” - o Herói Azul hesitou por um momento.

- “Mas o quê? Também eu não pergunto se a roseira quer ou não que eu retire suas folhinhas, apenas as corto, sem dó nem piedade!”

A formiga seguiu seu caminho, já cansada daquela conversa para boi dormir... mas o Herói Azul lembrou-se que ela, logo no início, tinha dito que não pudera deixar de ouvir sua pergunta feita á dona abelha. Correu até dona formiga que já ia longe e perguntou muito diretamente:

- “O que você sabe sobre a natureza?”

- “Eu nada sei sobre a natureza, Herói Azul, eu sou a natureza, simplesmente isso. A capacidade de saber – ou de pensar que sabe – essa é dos homens. Os bichos sabem apenas; não pensam que sabem – porque não exatamente pensam, assim como os humanos o fazem... no entanto, os bichos sabem. Esse saber está além do intelecto, do pensamento analisado e compreendido – como os homens fazem. Os bichos não têm intelecto mas sabem... e seu pensar surge desse saber natural.

A formiga retomou seu caminho e seu trabalho, carregando sua folhinha para seu formigueiro.

- “Você então quer dizer que os bichos sabem porém esse saber vem junto com sua vivência dentro da natureza... enquanto os homens sabem porém esse saber vem junto com sua vivência junto ao intelecto, aos livros, aos ensinamentos...” – o Herói Azul queria entender melhor sobre a natureza dos homens e dos bichos e de tudo.

- “Mais ou menos isso, sim. Houve um tempo, há muitíssimo tempo atrás - quando o homem ainda apenas engatinhava em seu desenvolvimento no planeta Terra - em que o homem e natureza comungavam muito intimamente, bem mais intimamente... O homem não se importava de deixar a natureza ir lhe ensinado seus caminhos, suas verdades, suas realidades. Ao contrário, o homem bendizia a natureza por tudo o que ela lhe proporcionava, lhe trazia, lhe abençoava... O tempo foi passando, passando e o homem foi ficando aparentemente mais forte, mais sábio, desenvolvendo mais seu saber em relação àquela natureza que o havia acolhido em seu colo e o nutrido tão intensamente. Desde há algum tempo o homem parece não mais prestar atenção à natureza... Para ele – homem – a natureza á algo todo o tempo a ser dominado, domado, re-criado. Então o homem perdeu o sentido da proteção à natureza , que é sua mestra, e tornou-se seu algoz, devastando-a, destruindo-a, em nome do desenvolvimento de sua mente, de seu intelecto!

O homem parece querer disputar tempo e espaço com a natureza... Será que conseguirá, será que poderá ser bem-sucedido nesta luta enfêrma, neste embate sem sentido?”

O homem se orienta pela terra
a terra se orienta pelo céu
o céu se orienta pelo Tao
o Tao se orienta por sua própria natureza (1)


A formiga tinha parado de carregar sua folha nas costas, tinha-a encostado num galho seco caído de alguma tangerineira adormecida. Estavam tão entretidos, formiga e Herói Azul em sua conversa, que nem notaram a aproximação de outros pequenos bichos e insetos do lugar: chegaram seu grilo, seu sapo, dona rã, dona lagarta, seu mosquito, dona borboleta, dois passarinhos e certamente alguns dos cachorros e gatos do Sítio! Também as tangerineiras acordaram e as laranjeiras se espreguiçaram. O mulungú, que estava se preparando para deixar suas folhas caírem e suas flores vermelhas se abrirem, parecia ouvir tudo com muita atenção!

Até a mãe do Herói Azul se aproximou para saber que reunião era aquela no meio da tarde preguiçosa e ensolarada de começo de agosto!

- Meu filho, e suas lições de casa, já estão todas feitas? Já estudou tudinho? – enquanto falava, a mãe do Herói Azul lhe estendeu um copo de suco de cajá-manga, as últimas frutas da temporada colhidas já caídas sobre o gramado e preparadas com carinho.

- Ainda falta o dever de ciências mas logo, logo, vou terminá-lo. – o Herói Azul não parecia muito animado em voltar para dentro de casa... aliás, ali fora, junto aos bichinhos e ás árvores, sua lição estava sendo bem mais proveitosa!

- Diga-me o que se trata o seu dever de ciências. – a mãe parecia insistir.

- Você se lembra da aula que deu semana passada na escola da Dalva sobre a criação do universo, não se lembra?

- Claro que sim, como poderia me esquecer? – a mãe sorriu com a lembrança daquela aula tão animada e profícua!

- Bem, também você se lembra que pediu prá gente escrever alguma coisa sobre o Tempo e o Espaço... e que sua próxima aula será amanhã... – o Herói Azul fez cara de menino arteiro, adolescente arteiro.

- E toda essa reunião acontecendo aqui no pomar do Sitio, trata-se então de conversas sobre o Tempo e o Espaço?

Nesse meio tempo, a formiga já tinha andado em carreirinha para a mãe do Herói Azul não flagrá-la carregando folhinha de roseira nas costas! O grilo também pulou para longe das rosas que ele tinha começado a se deliciar com suas pétalas macias... A lagarta cavou um pequeno buraco na terra e desapareceu por lá... O mosquito voou para longe para amolar outra pessoa e também par não servir de manjar para o sapo e para a rã, que por sua vez, voltaram aos seus lugares dentre os aguapés da beira do córrego.

Parecia que todos os bichos tinham, rapidamente, arranjado o que fazer. Mas a borboleta ficou, pousada suavemente numa flor colorida do canteiro das zínias.

- Veja a borboleta, ela é a própria visão do universo! – a mãe estendeu sua mão em direção a borboleta que concordou em nela pousar, batendo levemente as asas transparentes.

- A borboleta é o símbolo da metamorfose e também da efemeridade.

O Herói Azul pareceu não entender essas duas palavras. A mãe explicou:

- Metamorfose é a constante mutação de tudo aquilo que existe no universo. Efemeridade é o tempo que sempre passa, e passa veloz, sem que mesmo o percebamos! Tudo no universo está sempre em constante mudança, sempre se metamorfoseando, uma coisa se transformando na outra e essas mutação - cada tipo de mutação – tem seu jeito e seu tempo próprios de acontecer... Porém diante da eterna eternidade - que é o Tao, a Suprema Consciência – tudo, tudo, mesmo aquilo que dure o tempo de vida de um universo, tudo é apenas efêmero, passageiro, transitório.


Lao Tse nos diz:

O retorno é o movimento do Caminho.
A suavidade é a movimentação do Caminho.
Os seres nascem da existência
E a existência nasce da não-existência. (1)

- Ainda você não me falou sobre como tudo isso se relaciona com o Tempo e o Espaço. – o Herói Azul ansiava por mais explicações.

- O Tempo e o Espaço – assim como os conhecemos – teriam nascido da explosão inicial que trouxe vida externa a este nosso universo em que vivemos. Foi o Big Bang, há cerca de 13 / 14 bilhões de anos atrás - 13.7 bilhões, para sermos mais exatos. Do nada, explodiu o todo formando assim, a expressão concreta do tudo. Shakespeare nos diz que mais nos parece um universo dentro de uma casca de noz...

Da explosão surgiram o Tempo e o Espaço, um formando o outro assim como uma fiandeira-tecelã fia seu fio e o trabalha em trama e urdimento, espaço e tempo, trama e urdimento do Tao do universo.

No entanto, o Espaço é da classe do duradouro, do finito – ou seja, daquilo que permanece, sim, mas por algum tempo somente – porque todo o tempo está em transformação, em mutação.

O Tempo, ah, o Tempo, esse sim, dura, dura, dura e é constante e vai tecendo a si mesmo na medida que o Espaço vai permitindo abrir mais espaço para o tempo acontecer!

Então, a explosão inicial do universo acabou permitindo que as partículas jorradas formando o Espaço primordial fossem dando lugar ao Tempo de começar a acontecer... e o Tempo vai avançando na mesma medida em que o Espaço vai se fazendo... até que nenhum mais Espaço possa acontecer – por já ter se realizado por inteiro, depois de todas as estrelas do nosso universo terem nascido, vivido e morrido e se tornado Buracos Negros... E ainda assim o Tempo permanecer – para contar toda a história daquele universo....

Os resíduos dessa história, desse Tempo que guardou em si tudo o que restou do Espaço anterior, formam a possibilidade de uma nova explosão, de um novo Big Bang, a formação, o nascimento de um novo universo.

Assim caminha o Tao, criando e re-criando os universo – o multiverso, na realidade.

O tempo é infinito porque é herdado de universo para universo, desde o Tao, que está para além do tempo.

O espaço é finito porque vai se metamorfoseando sempre, se desenvolvendo, nascendo, vivendo e morrendo: num momento cabe dentro de uma semente, em outro momento explode revelando o tempo e espaço; andando, andando, andando, até que toda a matéria ao qual a Luz da Vida aderiu, termine.

No entanto, a Luz da Vida permanece e através do tempo, cria um novo espaço. Esse espaço, no entanto, também pertence ao tempo e portanto é também infinito, na medida que, como uma semente, aguarda o Sopro Primordial do Tao fazendo o Criador voltar a realizar a Criação.

Lao Tsé, o mestre do Tao, nos diz em seu Capítulo 4 do Tao Te Ching:

O Caminho é o Vazio
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

O Caminho é o Tao. Sobre o Tao não se fala, não se tem palavras para se referir ao Tao porque o Tao está além de todas as palavras, além do além. Tudo aquilo ao qual pode ser referido faz parte do Mundo da Manifestação, o Tai Chi. O Mundo da Manifestação é criado, é um espelho que espelha e re-cria tudo aquilo que repousa no inefável, no sutil, que ainda poderemos nos referir como o Mundo da Não-Manifestação, o Wu Chi. No entanto, até o Mundo da Não-Manifestação - que é da classe do Absoluto - é criado a partir do Tao. Sendo assim, o Tao ainda está além, para muito mais além do Mundo da Não-Manifestação.

O Tao pode ser alcançado através do ato do Caminhante Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao. Esse Caminho pode ser chamado de Vazio, de entrar no Vazio. É somente através do Vazio Absoluto que o Caminhante consegue Caminhar seu Caminho e alcançar seu Tao. Esse Vazio é anterior ao Tudo - que é o Mundo da Não-Manifestação simbolizado pela gravidez sutil de tudo aquilo que faz nascer e criar o Mundo da Não-Manifestação, que é o Todo. Assim, o Vazio é anterior ao Tudo e ao Todo, ao Mundo da Não-Manifestação e ao Mundo da Manifestação. Por isso, Lao Tsé, no Capítulo 4 - que é um dos Capítulos que mais intimamente nos falam do Tao -, nos diz que O Caminho (O Tao) é o Vazio.

O uso desse Vazio jamais o esgota porque o Tao é inesgotável ou mesmo além da possibilidade de ser esgotável ou inesgotável - desde que é o Tao anterior à própria Criação do Nada, do Tudo e do Todo, anterior até ao próprio Vazio, que é o que mais próximo se lhe assemelha.

Os "dez mil seres" simbolizam a Criação e a raiz dessa Criação é oriunda do Vazio - que "é imensuravelmente profundo e amplo". Novamente, nesses versos, nos é dito que o Vazio é imensurável, ratificando o fato de seu uso jamais o esgotar.

Nesse mesmo Poema, Lao Tse nos descreve de forma simples porém maravilhosa, Te, A Virtude. A Virtude é tudo aquilo que precisamos vivenciar - e da forma como melhor vivenciar - para trilharmos nosso Caminho. A Virtude representa a raiz do Mundo da Manifestação e o Vazio representa a raiz do Mundo da Não-Manifestação e ambos apontam para a ponte que leva ao Tao, O Caminho.

Dessa forma, Lao Tsé nos diz para acalmarmos nossa mente e buscarmos a expansão da consciência a fim de a tornamos iluminada e infinita - esse é o Caminho da Iluminação.

Então, Lao Tsé nos revela como nos harmonizarmos com a Luz do Tao e entrarmos no Vazio: a consciência de que somos nós mesmos o Tao e assim sendo, é preciso que ao Tao retornemos, nos fusionemos. Esta é a Alquimia do Caldeirão, ou seja, o Caminhante torna-se Homem Sagrado a partir do Tao da Iluminação e trabalha seu corpo físico já com a plenitude e infinitude de sua consciência iluminada e transforma, transmuta, esse corpo físico em Corpo de Luz, alcançando então, o Tao da Imortalidade ou Liberação - vida e consciência iluminadas e infinitas.

Por ter se tornado Homem Sagrado, Lao Tsé pôde nos contar sobre o Mistério dos Mistérios, ou seja, que o Tao é anterior à própria Criação. O Tao é impessoal e Absoluto. Dessa forma, o Homem Sagrado, ao se fusionar ao Tao, descobre sua impessoalidade e infinitude.

Fundamentalmente, mais que se descobrir anterior à própria Criação, o Homem Sagrado descobre que ele mesmo, fusionado ao Tao, ao Caminho, é anterior ao próprio suposto Criador, que Lao Tsé neste Capítulo, nomeia de Rei Celeste.

"Rei" é a Consciência iluminada e celestial, a Suprema Consciência, Deus-Onipotente, O Criador que com sua Consciência cria a Criação, espelho de sua Consciência Suprema. Sendo assim, o Homem Sagrado é aquele que alcança, se fusiona com a Consciência Suprema, com o Rei Celeste, e finalmente diante do Vazio do Tao, compreende o Tao além de qualquer compreensão, além de qualquer palavra, além do além. Porque sobre o Tao não se fala, apenas nos deixamos preencher pelo Tao.

Dessa maneira, o Homem Sagrado, dentro da infinitude e impessoalidade do Tao, compreende que "Não sei de quem sou filho, Venho de antes do Rei Celeste". Essa é a Iluminação. Esse é o Caminho. E "O Caminho é o Vazio".

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O Tao Te Ching, o Tratado do Caminho e da Virtude, é uma obra extremamente concisa e que, no entanto, "é imensuravelmente profunda e ampla, como a raiz dos dez mil seres". A meu ver, o Capítulo 4 é um dos que mais expressa O Tao e O Te em sua concisão e em sua amplitude. E seus primeiro e último versos expressam a estrutura fundamental da apreensão do Tao diante de todas as outras apreensões espirituais e religiosas que conheço:

O Caminho é o Vazio

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Venho de antes do Rei Celeste

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Sapos, rãs, lagartas, formigas, borboletas, passarinhos, cachorros, gatos, tangerineiras, laranjeiras, jabuticabeiras, mangueiras, pitangueiras, pessegueiros, mulungús, flamboyants, ipês, cenouras, alfaces, almeirões, galinhas, patos... todo o Sítio ouvia, em silêncio, o que a mãe do Herói Azul ia dizendo, assim, tão simplesmente, com quem tece a trama e o urdimento de uma colcha no tear...

O Herói Azul lembrou-se de sua aula sobre a formação das estrelas, seu tempo de vida e sua morte, quase sempre explodindo, lançando no espaço mais matéria densa para formar novas estrelas, novos planetas, novas civilizações, árvores , frutos, flores, legumes, hortaliças, pedras, águas, animais, homens, mentes e corações... e perguntou:

- Então somos todos pertencentes a este mesmo início do universo - somos assim já tão antigos e metamorfoseados? E em cada ciclo dessas metamorfoses, vivemos uma efemeridade?

- É isso mesmo, somos antigos e metamorfoseados – somos todos, na natureza, compostos de poeira de estrelas! Certamente possuímos todos a história do universo contada dentro de nós! Toda a natureza é ao mesmo tempo protagonista e espectadora do grande drama do universo como se fosse uma peça de teatro que está sempre acontecendo ao vivo e a cores com seu cenário sempre se transformando e seu texto sempre se atualizando.

- Essa é a imortalidade! – os olhos do Herói Azul brilhavam de emoção.

- Sim, isso é a imortalidade – esse é o Tempo. Porém, o Espaço, esse é mortal – ele se metamorfoseia todo o tempo e vive – em cada momento de suas metamorfoses um breve momento do Tempo, uma efemeridade: nasce, vive, morre, nasce, vive, morre, nasce, vive... para morrer e nascer novamente num Tempo sem fim – o Tao.

Tempo e espaço, sendo Filhos do Tao, O Caminho, se perpetuam .... É o Tudo da Criação, que num momento parecer ser o Todo e em outro momento parece ser o Nada.

Poderíamos, também, compreender que Tempo, Sublime Yang, Espírito, seriam outras formas de expressar Purusa, o Rei Celeste, a consciência objetivada dentro do Mundo da Manifestação, a geração e doação da Luz e da Vida.

Da mesma forma, poderíamos, também, compreender que Espaço, Sublime Yin, Alma, seriam outras formas de expressar Prakrti, a Mãe Misteriosa, o princípio operativo da Criação através de sua energia cósmica dentro do Mundo da Manifestação, a criação da Vida através da Não-Luz.

Nosso espírito, então, é parte desse todo de universos, desse Todo do nosso universo – nosso espírito é tão antigo quanto nosso universo porque certamente nasceu junto com ele, semente que éramos nós e o resto do universo. E hoje, depois de cerca de quatorze bilhões de anos de vida de nosso universo – somos ainda tão jovens, ainda entrando na adolescência do universo.... – somos as mesmas sementes oriundas da explosão inicial da semente primordial que deu luz ao nosso universo.

Assim, nosso espírito vem vindo de estrela em estrela, acoplando sua luz e não-luz à matéria – luz é matéria – e fusionando nesse espírito uma mente que vai se ampliando e acumulando a memória do próprio universo – a alma. Nosso espírito é a Luz que dá Vida à matéria, mente, à encarnação, ao nosso corpo físico. A alma é aquela que modela essa vida e a torna vivente.

Nosso espírito é anterior ainda a esse nosso universo e a todos os possíveis universos.... porque é parte unitária da Unidade Absoluta do Tao da Criação. Nossa alma é anterior ainda a esse nosso universo e a todos os possíveis universos... porque é a parte coletiva fusionada à Unidade Absoluta do Tao da Criação.

Nosso espírito possui – anteriormente e posteriormente – a eternidade do tempo e espaço do universo em que vivemos mas nosso corpo físico possui a duração do tempo e do espaço do planeta aonde encarnamos, onde a matéria acolhe nosso espírito que traduz a Vida essencial do Tao – e nossa alma que traduz o Sopro Primordial da Criação, o Pranah, Chi, o fole universal, a força vital.... mesmo que o corpo físico seja produto da metamorfose estelar desde o início deste universo.... que por sua vez já é a metamorfose de um universo anterior... numa Eterna Mutação.

A alma vai trazendo consigo o fusionamento entre o espírito e a matéria, a cada tempo e espaço em que ambos se apresentam na Criação, seja na Luz ou seja na Não-Luz. Dessa forma, a alma é a própria memória que a mente carrega consigo desde antes desse universo em seu tempo de Não-Luz, durante a vida desse universo em seu tempo de Luz, e certamente depois desse universo, novamente em seu tempo de Não-Luz.

No entanto, diferente do espírito que possui a infinitização do tempo imajada na linha contínua do Supremo Yang, a alma é certamente também infinita porém apresenta-se em sua finitude de espaço imajada na linha vazada do Supremo Yin. Ou seja, a cada materialização de Luz ou Não-Luz, a alma assume o tempo e o espaço dessa materialização. Dessa forma, podemos dizer que a alma é a própria biblioteca do universo, realizando a mente em seu Ciclo de Brahma, do sutil ao denso, do denso ao sutil – ao longo de sua incontável e infinita possibilidade de manifestação dentro do Eterno Retorno do movimento do Caminho.

Tao é o Caminho. O Caminho se faz ao Caminhar... assim é a vida do universo, o Tempo e o Espaço.

Também sobre isso, Lao Tsé diz:

“O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros

Assim,
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás
E o Corpo avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo. (2)


O céu é o Tempo, a terra é o Espaço. O Tempo é eterno e o Espaço todo o tempo vai se metamorfoseando porque o Tao se orienta por sua própria natureza, realizando assim o Tempo e o Espaço e toda a natureza, não criando nada para si mesmo, nada possuindo.

Tudo o que existe na natureza é simplesmente a própria natureza, sua própria forma de ser.

O Homem Sagrado é aquele que está trilhando o Caminho da Bem-Aventurança em busca de sua Liberação e em direção à fusão com a Consciência Cósmica, com o Tao.

O corpo que ele deixa para trás, é o Espaço que vai se metamorfoseando, se transformando. Esse espaço é a matéria, a Luz, o corpo e a não-matéria, a Não-Luz, o não-corpo.

O Corpo (com letra maiúscula) que avança é o Tempo que traz consigo o Espírito, aquilo que em nós é imortal e que procura retornar à sua fonte original, ao Tao.

Assim, além de todo o Espaço, além do corpo, o Tempo, o Espírito, permanece, - o Corpo permanece.

Através do Tempo que vai fazendo o Espaço vivenciar seu corpo de Luz e de Não-Luz

através do não-corpo , o Tempo, o Espírito, não pára, é constante.

Conclui o Corpo, ou seja, conclui o Espírito através do Tempo e alcança a fusão com a Consciência Cósmica - alcança a Imortalidade.

Ao final de um ciclo de vida de um universo, Tempo e Espaço plenamente fusionados dentro da Imortalidade, junto ao Tao, como uma semente, guardam em si mesmo, em seu grandioso útero, toda a vida que explode maravilhosamente para dar início a um novo universo, lançando no novo Tempo e Espaço as novas flores que darão vida aos novos frutos: estrelas, planetas, natureza, pedras, águas, árvores, flores, frutos, animais, homens, mentes e corações.....


O Herói Azul

© Janine Milward

Capítulo 6
O Tempo e o Espaço