Capítulo 7 - O Retorno à Fonte Original



O Herói Azul
© 2008


Janine Milward


Capítulo 7


O Retorno à Fonte Original



Ah, esta última noite foi mesmo trabalhosa! Pelo menos dez vacas da fazenda vizinha sentiram-se demasiadamente atraídas pelo capim ainda fresco – uma raridade nesta época do ano, tempo de estiagem, tempo de seca do inverno – e resolveram, naturalmente, arrombar a cerca e adentrarem o Sítio das Estrelas!

O Herói Azul e sua mãe estavam fora, no encontro de meditação e Yoga, felizes com o retorno do monge que viajara para a Índia e que parecia que nunca mais voltava..... E quando voltaram os três para casa, felizes e contentes, esfaimados, ansiando por um jantar quentinho.... qual não foi sua surpresa quando depararam com várias vacas se deliciando com a horta maravilhosa, com o milharal ainda tenro, com o canteiro de zínias tímidas!

Os cachorros estavam alvoroçados, fazendo uma enorme arruaça para espantar as vacas e até que foram bem-sucedidos nessa empreitada.... Mesmo assim, o capataz da fazenda vizinha teve que ser chamado, teve que ser acordado, para tocar a vacada de volta para seu curral! Ufa! Que noite!

...................

Finalmente, o jantar ficou pronto, um tanto improvisado devido aos contratempos momentâneos, porém, como sempre, gostoso e reconfortante!

O monge sempre gosta de vir aqui e dormir em seu Ashram no Sítio das Estrelas! Também, pudera, com uma vista dessas, com um silêncio desses, todos adoram!
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Depois do jantar, já tarde da noite, o Herói Azul ainda resistia em ir para cama, ele queria muito conversar um pouquinho mais com o monge, queria aprender mais sobre as sementes que nascem de novo e sobre as sementes que não nascem de novo – sobre a mortalidade e sobre a imortalidade.

- Dada, diga-me alguma coisa sobre a “semente queimada”.

O monge sorriu, feliz por ver que o rapazinho andava, já tão precocemente, tentando compreender melhor o mundo da espiritualidade.

- “A semente queimada”, Daghdhabiija, é quando a pessoa consegue atingir um estágio em sua vida onde, para ela, não existem mais Samskaras – nem passados, nem presentes e nem futuros... ”As sementes queimadas” são todos os Samskaras exauridos - ou seja, a ação, Karma, e sua reação real ou em potencial, Samskara, deixam de existir – porque o aspirante espiritual alcançou a Liberação da Mente, a plenitude de sua consciência, enfim podendo se fusionar inteiramente com Paramapurusa, a Suprema Consciência.

- Mas, como se consegue chegar aí, como alcançar este estágio de espiritualidade?

O monge olhou para o Herói Azul atentamente em seus olhos, com seriedade, com serenidade, com emoção.

- A meta de nossa vida é alcançar Paramapurusa, a Suprema Consciência e sermos Unos com essa Consciência Cósmica, com o Absoluto. Antes de mais nada, é preciso que reconheçamos esta meta como a única e verdadeira verdade a ser seguida em nossas vidas... Todo o resto, todo o nosso cotidiano, tudo deve ser vivenciado e dirigido no sentido de nos conscientizamos inicialmente dessa meta....
A meditação, certamente, é o grande primeiro passo desse longo Caminho. É por isso que a Primeira Lição de Meditação, a Iniciação Espiritual, é tão importante porque ela já nos mostra o Caminho. O Caminho se faz ao caminhar.... Todo o tempo o Guru, o Acarya, os auxiliares espirituais estarão nos ajudando, nos apontando nosso Caminho, não nos deixando desviar de nossa meta fundamental de vida.... Mas o verdadeiro caminhar, a realização do Caminho, somente o aspirante espiritual pode fazê-lo por si mesmo, através de seu esforço, de seu Conhecimento, Jinana, de sua Ação, Karma, e de sua Devoção, Bhakti.

A mãe do Herói Azul, que ouvia a conversa ao mesmo tempo que retirava os pratos vazios da mesa e os levava para a pia da cozinha, entrou na conversa:

- Você se lembra, meu filho, que eu gravei uma das palestras do Retiro Espiritual em que estivemos recentemente na fazenda-mosteiro do monge? Bem, certamente me parece que o texto – que acabei de transcrever - vem bem a calhar porque trata exatamente desse assunto: A Liberação, Mukti.

- Posso ver o texto agora? - o Herói Azul arriscou.

- Bem, já é tarde, você não acha? O dia hoje foi longo e a noite também! Amanhã cedo tenho que ir ver o estrago que as vacas fizeram na horta, no jardim, na cerca....e também amanhã cedo você tem escola!

- Está bem, está bem....mas, Dada, me diga somente mais uma coisa: liberar-se dos Karmas e Samskaras, alcançar a Liberação, tornar-se uma verdadeira “semente queimada” – aquela que não mais nasce - e se fusionar com a Consciência Cósmica – tudo isso – significa imortalidade?

- Sim.

- Mas... e todo o resto, e todo o mundo, todas os outros seres que restam....o que será deles, quero dizer, não seria algo um tanto egoísta se atingir a imortalidade, se fusionar com Paramapurusa, se tornar a própria Consciência Cósmica e abandonar todos os outros seres à sua própria sorte, sua própria busca, seu próprio Caminho?

O monge estava visivelmente emocionado com o encaminhamento do pensamento do Herói Azul.

- Talvez alcançar a imortalidade – e abrir mão dela – e continuar como semente que sempre pode nascer novamente....para dessa maneira ajudar a todos os outros seres alcançarem também a Liberação – até o último ser – talvez seja essa a Coroação do Caminho, não é verdade? Chegar até Paramapuruha e voltar para dizer, se isso fosse possível, mas voltar para ajudar todos os outros seres encontrarem também Paramapurusa - esta é a meta que está além da meta original!
Retornar à Fonte Original e alcançar a imortalidade.... e voltar a assumir a mortalidade, re-assumir o Espaço dentro do Tempo – este sim, este é o verdadeiro Mestre – aquele que já é Semente Queimada, porém que retorna da Fonte Original que tão bem conheceu para se tornar novamente Semente que nasce de novo.... Nosso Guru, nosso Mestre, Baba, sempre dizia que é realmente muito difícil retornar à Roda do Samsara depois que nos fusionamos com Paramapurusa.... É como o inseto que se sente totalmente atraído pela luz e que fica voando em torno dela sem conseguir se afastar..... é um embevecimento, um maravilhamento....

Por alguns segundos pairou um silêncio profundo entre o monge, o Herói Azul e sua mãe. O monge levantou-se, fazendo como quem já quer ir dormir, para acordar bem cedo no dia seguinte e seguir seu caminho. O Herói Azul parecia ainda não ter sono....

- Você então diria que esse mestre poderá exercer uma escolha? E que esta escolha também poderá significar que ao invés de retornar a este universo – quem sabe ele poderá tornar-se a Semente-que-nasce-de-novo que dá início a um novo universo?

- Você quer dizer, ainda abraçar a imortalidade através de uma nova condição de Tempo e Espaço?

- Sim, é bem isso.

- Bem, é possível que isso possa acontecer sim. Paramapurusa está, na verdade, além do Mundo da Manifestação, ele é o próprio Mundo da Não-Manifestação, a imortalidade da imortalidade, a eternidade da eternidade, a infinitude da infinitude.... o Mundo sobre o qual não se fala – porque não se tem como falar sobre. A verdade é que quanto mais esticamos a imortalidade, a eternidade, mesmo assim, apenas encontraremos algo em que em algum ponto – espaço - ou em que em algum momento – tempo -, esbarra em algum tipo de finitude, de final. Mesmo que esse final sempre leve a um novo começo....
Somente Paramapurusa, Nirguna Brahma, pertence à verdadeira eternidade, o Mundo da Não-Manifestação, a Consciência Cósmica não-manifesta. Todo o resto é Saguna Brahma, aquilo que existe, o Mundo da Manifestação, a Consciência Cósmica manifesta.
O que importa é compreendermos que Paramapurusa é o núcleo primordial, a fonte original. Quanto mais a compreensão científica do universo avança, tanto mais Paramapurusa conserva sua primordial qualidade, a de ser a totalidade, a de conter a totalidade dentro de si.
Tudo no universo é externo à Paramapurusa. Somente Paramapurusa possui interiorização apenas. Mesmo que o Big Bang seja advindo de um núcleo, de uma semente plena de vida, de tempo e de espaço, sua total interiorização já é uma manifestação proveniente do Mundo da Manifestação de Paramapurusa, de Saguna Brahma, da Consciência Cósmica manifesta.
Tudo no universo - ou multiverso, como queiram - está contido dentro de Paramapurusa.
Assim, estando contido dentro de Paramapurusa, tudo no universo, tudo, é apenas exteriorização.
Então é por isso que a meditação é tão importante, ela nos leva a nos interiorizar, nos aprofundar em nós mesmos e nos tornar Unos com a grandiosidade dessa interiorização – nos tornar unos com Paramarurusa.

A mãe do Herói Azul havia desaparecido por alguns instantes e voltou com um pequeno livro em suas mãos:

- Sobre tudo isto que falamos até agora, Lao Tsé nos diz:

O retorno é o movimento do Tao
A suavidade é a atuação do Tao
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não existência (1)

- Você bem sabe que o Tao surgiu a partir do Tantra. O Tantra é a raiz de tudo. Tantra em sânscrito quer dizer “Aquilo que libera da escuridão, da ignorância” – o conhecimento aliado à ação e à devoção.. O Tantra surgiu há cerca de 7 mil anos atrás e a partir dele foram se formando religiões e filosofias. No entanto o Tantra é uma prática e não simplesmente uma teoria: vivenciar o mundo como expressão da infinitude da Suprema Consciência. - o monge nunca se cansa de repetir isso.

- E a não-existência? Não seria ela interior, incontaminada – digamos assim? - o Herói Azul continuava aceso e sua mãe, complacentemente, ainda o incentivava:

- Ainda não totalmente – pois que ela já está sendo nomeada, falada sobre. Até a não-existência não escapa de ser exterior, ainda pertence ao Mundo da Manifestação – porque ainda nos suscita uma expressão, uma denominação. .
A não-existência é exterior ao que ela provém. Daquilo que a não-existência provém, faz parte do reino da absoluta interiorização. E sobre isso, não se fala sobre, não se tem linguagem para. É o Mundo da Não-Manifestação.
Mais uma vez retomo Lao Tsé:
“O caminho que pode ser expresso
não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado
Não é o Nome constante” (2)

O caminho e o nome (com letra minúscula) pertencem ao Mundo da Manifestação e portanto, podem ser expressos e enunciados. O Caminho e o Nome (com letra maiúscula) são o Tao e são constantes, ou seja, são eternos, fazem parte do Mundo da Não-Manifestação.

O Herói Azul aproveitava todas as brechas da conversa:

- Sendo assim, Paramapurusa, Tao, seriam a denominação mínima e máximamente possível para a absoluta interiorização sem qualquer possibilidade de exteriorização.

- Interiorização absoluta, sim, isso é correto. Porém, certamente com absoluta exteriorização que seria o princípio da não-existência que faz surgir a existência.
É a criação. A criação nos remete a seu criador... que por sua vez seria anterior à própria criação...No Tantra, Saguna Brahma nos revela Paramapurusa do Mundo da Manifestação que provém de Nirguna Brahma que nos revela Paramapurusa do Mundo da Não- Manifestação. - O monge também não mais parecia querer retirar-se para seu Ashram, ele sempre adora uma boa conversa!

A mãe do Herói Azul continuou:

- A idéia de uma mente suprema, de uma consciência cósmica, me parece demasiadamente humana, pouco abstrata ..... ainda pertencente ao campo da existência.
O Tao, talvez o Tao nos revele algo mais abstrato, menos humanizado.... e certamente mais universalizado e impersonalizado.

- Uma vez mais lembro a você que o Tao nasceu do Tantra. – retrucou o monge, pacientemente. Ao que a mãe do Herói Azul emendou:

- A verdade é que todo o tempo a ciência caminha mais profundamente no tempo e no espaço para procurar as respostas para suas questões. Eu venho lendo várias artigos onde os cosmólogos dizem, e dizem bem, que o universo – ou multiverso – é como a Liila, O Jogo Cósmico. Se tentarmos compreender a Liila através de nossa exteriorização, do Mundo da Manifestação, então poderemos pensar que se existe um Criador, uma Consciência Cósmica .... certamente nem mesmo esse criador saberia aonde alguns dados desse grande jogo se esconderam....

O monge sorriu:

- Se, no entanto, tentarmos compreender a Liila através da nossa interiorização absoluta, mergulhando no Mundo da Não-Manifestação - então poderemos finalmente nos calar... e compreender.

A mãe do Herói Azul continuava folheando seu livrinho do Tao Te Ching:

- Lao Tsé diz:
“O que é da compreensão, não é a palavra
O que é da palavra, não é a compreensão”.(3)

O que se sabe, fala-se somente através da existência , mesmo que baseando-se na não- existência.
E o que não se fala, sabe-se também através da existência, mesmo que baseando-se na não existência.....

O monge concordou:

- O Conhecimento, Jinana, é a base do triângulo cujas vértices são Karma, a Ação e Bhakti, a Devoção. Este triângulo cujas vértices apontam para o céu, é a estrutura fundamental para alcançarmos a Liberação, Mukti.

O Herói Azul parecia querer ainda uma última resposta antes de ir dormir:

- E o que se faz para se encontrar o Conhecimento, Jinana, .... para não saber.... e no entanto, saber?
Srii Srii Anandamurti, nosso Baba, nosso querido Guru, nos diz:

“A Consciência Suprema se encontra dentro de você assim como a manteiga está no leite; bata a sua mente através da meditação e Ela aparecerá – você verá que a resplandecência da Consciência Suprema ilumina todo o seu Ser interior. Ela é como um rio subterrâneo dentro de você. Remova as areias da mente e você encontrará a água fresca e límpida no interior.”(*)

Enquanto falavam, o Herói Azul e sua mãe iam andando em direção ao Ashram do monge, ajudando-o com sua pequena bagagem e seus cobertores para protegê-lo da madrugada gelada, quando a neblina desce e envolve todo o vale verde da Estrada do Belém....
- Bem, acredito que já seja hora de todos irmos nos entregar à nossa absoluta interiorização de uma boa – porém curta – noite de sono.... Namaskar, Dada, boa noite, tenha bons sonhos....

- Namaskar!

O Herói Azul
© 2008 Janine Milward
Capítulo 7
O Retorno à Fonte Original