Prólogo de O Herói Azul


O Herói Azul


© 2008

Janine Milward

Prólogo

Dois Dedos de Prosa sobre o Sítio das Estrelas


Este é o Sítio das Estrelas, Estrada do Belém - situado em uma pequena cidade do interior das Minas Geraes docemente chamada de Mar de Hespanha.

A Estrada do Belém é toda margeada por bambus fazendo com que a gente vá se sentindo com vontade de se curvar para dentro, buscando a introspecção, a paz interior.

Aqui vivem o Herói Azul e sua mãe. Ele é um menino de 12 anos, começando a vivenciar os mistérios da vida. Sua mãe já deixou para trás seus cinqüenta anos, porém sempre ainda pronta a vivenciar mais e mais mistérios da vida.

O Herói Azul nasceu no Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa cheia de encantos mil. Mas sua mãe e ele ansiavam por deixar para trás a cidade grande... E porque procuravam por estrelas mais brilhantes e céu mais transparente, eles ansiaram por encontrar um pequeno sitio, uma fazendola, um lugar aconchegante e bucólico, na roça... Um Sítio onde pudessem viver a felicidade de comungar com a natureza diariamente, de entrelaçarem-se mais intimamente com a mãe terra e deixarem-se envolver mais intimamente com o pai céu....

Finalmente encontraram um lugar que lhes agradou: um pequeno pedaço de terra de apenas um alqueire, porém com minas de água limpinha e gostosa, um regato cantarolante formando pequenos lagos, árvores floríferas e frutíferas, uma casinha muito antiga, de quase cem anos, porém muito gostosa e aconchegante com um belo fogão a lenha na pequena cozinha..., antiga casa de colonos, certamente colonos da fazenda de casa grande ao lado!

O Sítio estava muito mal cuidado, quando chegaram - abandonado mesmo. Primeiramente, foi chamado um pedreiro para dar uns retoques aqui e ali, jogar umas paredes abaixo para aumentar a sala da casa-sede e acrescentar com tijolos outros lugares necessitados! O caseiro e sua mãe pegaram em tinta, cal e pincéis e trinchas para pintar todas as construções do Sítio: o galpão, a casa de caseiro, o galinheiro, a casa sede, a antiga usina de luz, o chiqueiro.... Logo, logo, o antigo chiqueiro foi totalmente reformado transformando-se numa encantadora casa de hóspedes! Também uma garagem foi construída – garagem para receber os carros de todos os amigos que viriam das diferentes cidades das redondezas para visitarem o Herói Azul e sua mãe em sua nova moradia: O Sítio das Estrelas!

Construiu-se mais um lago com ponte e ilha com caramanchão coberto por buganvílias exuberantes.... A antiga usina de luz transformou-se no Moinho de Meditação ou Oratório...

Mais tarde, a casinha do caseiro foi reformada para se tornar uma outra casa de hóspedes, grande e confortável, aquecida por seu fogão a lenha! Também, num cantinho simpático do imenso gramado, foi construído um ofurô de águas frias e límpidas, vindas do interior da terra, bendita água.

Pouco a pouco, o Sítio das Estrelas foi e continua sendo transformado, tornando realidade objetiva tudo aquilo que antes apenas era uma realidade subjetiva...

“O retorno é o movimento do Caminho
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência”

Lao Tsé, Tao Te Ching, Capítulo 40

Foi um período de muito trabalho os primeiros meses, os primeiros anos de vida no Sítio, na nova cidade, novos amigos, nova escola, novos modos e costumes de vida, nova forma de falar a língua, novo sotaque, nova visão de vida.... Porém tudo foi sempre muito prazeroso, e vem sendo vivenciado muito prazerosamente pelo Herói Azul e sua mãe – porque ambos amam verdadeiramente viver junto à natureza, junto à simplicidade da roça, junto ao provincianismo da cidade pequena do interior, junto ao verde das plantas, das árvores, da mata, junto ao cantar dos pássaros... e sob a luz tranqüila das estrelas!

E desde sempre o Sítio das Estrelas é um Ashram.

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O Herói Azul escreveu uma longa carta aos seus amigos que ficaram na cidade grande, contando sobre sua vida no Sítio das Estrelas e chamando-os para aqui virem comungar com ele esse cantinho na roça, bucólico e silencioso, parada de um caminho a Caminho do Céu:

Meus queridos amigos,

Gostaria de compartilhar com vocês minhas impressões sobre meu novo lugar de moradia, minha nova vida e, ao mesmo tempo, de tal forma encantar a vocês todos com meu relato que certamente acredito que vocês ficarão com água na boca e virão correndo me visitar...!

A meu ver, viver na natureza do Sítio das Estrelas é ter como telhado o céu azul; como paredes, os morros e as matas, os riachos... e como chão, a grama, a areia, a terra...

Dentro da natureza, o olhar e a escuta, todos o olfato, e todos os instintos, se tornam mais sensíveis, mais acurados, mais verdadeiros.

A gente olha e vê os diferentes tons de verde encontrados nas folhas das árvores diversas, as cores multicolores das flores, o desenho, o torneado das plantas... A gente ouve e escuta o piar diferenciado de cada pássaro que corta os céus, uma voz aqui e ali, um latido, um miado... A gente sente de longe o cheiro da fumaça do fogão a lenha do vizinho, o cheiro da panela fazendo comida, do forno assando um bôlo e um pão; a roça de milho colhida, o gramado aparado, a bosta do boi que pasta tranqüilo...

A gente olha a água do córrego correr, correr, sempre correr, sempre uma água diferente e no entanto, sempre a mesma água, ininterrupta, sedosa, transparente... correndo, correndo, formando poças, lagos, cachoeirinhas, ondas, envolvendo os peixes e os sapinhos-crianças... e sumindo, serpenteando, por detrás do mato alto, para além da cêrca do Sítio, invadindo o sítio do vizinho, desaguando no grande rio logo mais, ali perto, não muito longe...

A gente acorda pela manhã com a neblina cobrindo todo o vale da Estrada do Belém e sente se o sol vai descortinar as nuvens ou se vai chover... Na primavera, a íris, uma flor bela como uma orquídea de cor azul anil, sempre acorda aberta em dia que vai trazer chuva logo mais à tarde... Também as formigas e até os mosquitos ficam bem mais impertinentes quando a chuva não está longe.

No outono, começa o tempo da sêca trazendo céu azul e toda a natureza verde colorida com o amarelo do sol. Assim continua também inverno adentro. Apenas que, quando ainda é outono, o céu da noite sempre traz mais estrelas do que em qualquer outra época do ano: é porque as chuvas mal foram embora, deixando o ar limpo e sêco. Quando entra o inverno, infelizmente, começam as queimadas malditas, que os fazendeiros pensam que é menos trabalho para capinar a terra mas que cansa a terra e traz uma cortina espêssa de fumaça ao céu, impedindo a beleza da transparência da natureza aparecer em todo seu esplendor, impedindo que as estrelas brilhem tão maravilhosas...

O melhor das frutas do outono chega em abril: laranjas-bahia, laranjas-lima, limas, tangerinas, tangerinas, tangerinas..... As tangerinas também são usadas para geleias que deliciam as torradas...

Os cajás-mangas anunciam seu pleno amadurecimento na entrada do inverno, depois de quase dez meses de vagaroso crescimento. São servidos em sucos e sorvetes e seu perfume dura por horas nos copos, jarras e em nossas mãos, maravilhoso perfume!

Os buganvílias do Sítio das Estrelas acompanham o outono e o inverno com sua floração exuberante, vistosa. As flores das mangueiras surgem com um inebriante perfume...

A primavera no Sítio das Estrelas ainda é tempo de seca, ainda é tempo de esperanças e muita, muita reza para o retorno das águas, do tempo das águas, das chuvas benditas que finalmente chegam ainda bem antes do verão. O verão é quente e chove, chove, chove, chove.... Toda a natureza, que no inverno amarelou os pastos e a relva e as folhas das árvores, se recompõe e de um momento para outro, sem que quase a gente perceba de tanta rapidez, colore tudo novamente de verde autêntico, forte, cheio de vida!

As flores das jabuticabeiras inundam a manhã com seu enxame de abelhas bebendo de seu néctar e revigorando com seu perfume suave.... um mês mais tarde, surgem as pretas jabuticabas coladas ao caule e aos galhos das árvores, as vezes até coladas às raízes!

Felicidade é comer jabuticaba no pé.... Colhemos muitas jabuticabas, baldes e mais baldes que são lançadas ao tacho de cobre sobre o fogão a lenha e potes e mais potes de geleia serão levados aos armários e servidos nas refeições matinais, nos lanches, nas ceias noturnas... Também as pitangueiras se deixam invadir pelas florezinhas brancas e delicadas que se transformam em frutinhos avermelhados e saborosos.

Enquanto isso, as manguinhas vão crescendo, vagarosamente, ganhando caroço, amadurecendo durante toda a primavera.... No Sítio das Estrelas, as mangas chegam por volta do tempo do Natal e do Ano Novo, às vezes juntamente com as eugênias, formando ambas um dueto dos mais saborosos, imbatível em sorvetes, saladas de frutas, saladas salgadas, chutneys, cruas e nuas, sempre.

As goiabas gostam de chegar por volta do carnaval. Aqui na provinciana cidade aonde moro, quando é tempo de goiaba, a gente passa pelas ruas da cidade e vai sentindo o cheirinho da goiabada nos tachos vindo das cozinhas das casas simples.... Nada melhor do que o queijo branco de minas com goiabada feita em casa, não é mesmo?

A horta do outono e do inverno é sempre muito farta, muito farta, quase que a gente nem precisa ir na rua para comprar qualquer coisa, somente o sal, o óleo, o açúcar.... porque todo o resto a horta nos dá – se plantarmos, naturalmente. No tempo da sêca, as raízes e as verduras que nascem perto do solo dão seu show.

Quando entram as águas, aí então a horta termina, vai embora, dando lugar a alguns pés de jiló, de pimentão, de quiabo, de berinjela, de feijão de corda. No tempo das águas, apenas plantamos legumes que dão em pé.... porque legumes e verduras do solo não suportam tanta água!

No Sítio das Estrelas, sempre as flores dos Cosmos, com seu tom alaranjado forte, invadem todas as terras, todos os lugares... Durante a sêca, seus pés são menores; mais tímidos mesmo; durante as águas, chegam a quase dois metros, felizes e contentes!

Fico contente em ver que as poucas sementes de Cosmos que trouxemos para plantar aqui no Sítio das Estrelas quando chegamos, correram pela Estrada do Belém e hoje já posso ver algumas moitas dos felizes Cosmos em algumas casas da cidade...

Os arbustos da Dama-da-Noite, volta e meia, cerca de quatro a cinco vezes por ano, adoram esquentar nossas noites com seu perfume intensíssimo, com suas flores abertas somente noturnamente e dormindo durante o dia...
Os papiros, pequeno, médios e grandes, dos lagos, nos lembram de nosso amor pelas letras, pelo papel, pelas letras correndo o papel adentro e afóra, nos trazendo o conhecimento...

As mudinhas das árvores a-virem-a-ser precisam ser aguadas durante o outono e o inverno e começo da primavera e transplantadas para o solo dos lugares do reflorestamento durante o começo do tempo das águas. São filhotas das árvores-mães aqui do Sítio mesmo, dos flamboyants, dos mulungús, dos ipês amarelos e rosas, das espatódias, das paineiras, das palmeiras, das mangueiras, das pitangueiras, das goiabeiras, das cabeludinhas, das ameixeiras, das eugênias.... e tantas outras árvores frutíferas e floríferas que nem posso me lembrar....

As estrelas vão acompanhando todos esses ciclos da natureza, sempre andando pelos céus, do leste para o oeste, dando sua reviravolta por sobre nossas cabeças ao longo do ano, surgindo hora mais cedo, hora mais tarde, hora quando estamos dormindo...

Os animais do Sítio também vão vivendo suas vidas próprias, os peixes, os patos e as galinhas, o galo que acorda tarde.....! .... os cachorros ansiosos para protegerem seu pedaço de chão, o Sítio.... os gatos que dormem de noite, de manhã e de tarde.... os pássaros soltos na natureza, as vacas do pasto das fazendas vizinhas, os cavalos que puxam charretes e carroças ou que servem de montaria para alguns cavaleiros corajosos da roça.... Com sorte, a gente vê algum lobo, coelhos e macaquinhos, tatus, lontras... ouve as seriemas com sua gritaria imensa nos pastos.... evita encontrar as cobras.... As aranhas das teias são benvindas enquanto as que andam peludas pelo chão também são evitadas... As formigas são sempre trabalhadeiras... porém são também um certo estôrvo, principalmente quando se deliciam com as folhinhas tenras e as belas rosas de nossos canteiros de roseiras... As moscas são evitadas se levando todo o lixo para a coleta da cidade e os mosquitos não gostam que usemos óleo de amêndoas em nossa pele e nos deixam em paz...

Ah! Como é bom irmos até o paiol, bem cedinho de manhã, enchermos a tigela de milho e irmos em direção ao galinheiro aonde as galinhas, galo e patos já estão todos de pé contra a cêrca do imenso quintal deles, aguardando por lançarmos sua refeição matinal por sobre a cerca! Depois, durante o dia, os restos e cascas de legumes e verduras e outras tantas coisas também são jogados no galinheiro, para felicidade das penosas que nos retribuem com seus ovinhos caipiras e avermelhados, verdadeiros ovos.

Depois do galinheiro, vamos até os lagos para jogar a ração dos peixes. As bolinhas de ração caem sobre a água e flutuam por alguns instantes, já sendo carregadas pela correnteza, quando a gente pode ver um peixe surgindo, abocanhando a ração e novamente desaparecendo nas águas mais marronzadas esverdeadas dos lagos. Houve um tempo que a lontra veio e comeu todas as tilápias, todas. As tilápias vermelhas eram tão preguiçosas, elas ficavam horas e horas à flor da água, apenas boiando, boiando, tomando sol.... Hoje estão apenas as carpas capim que comem todo o lôdo que fica na água, deixando-a brilhosa.

Todos os bichos do Sítio das Estrelas morrem de velhice, é preciso enfatizar este fato. Aqui não são comidos animais de qualquer espécie, graças aos céus, apenas vegetais. O vegetarianismo é uma das melhores formas de vivenciarmos a natureza com dignidade, com verdade, com autenticidade. Não precisamos da proteína da carne, existem várias outras possibilidades dentro dos vegetais para nos provermos da proteína que nosso corpo necessita. Não é preciso que tiremos a vida de qualquer animal que seja para satisfazermos nossa alimentação diária.

Além do que desnecessário é dizer que, em função da criação de gado para corte, nossas matas protetoras de nossas reservas naturais de água, estão sendo devastadas e degradadas de maneira cruel e impensada. Penso que num futuro breve, a continuar esta triste situação, as pessoas estarão ainda reunidas em torno a um churrasco, bebendo sua cerveja porém não mais encontrando água em suas torneiras de casa e nos riachos das cidades e dos campos...

(Aliás, é realmente terrível se comentar sobre o fato de que um grupo de conhecidos ambientalistas, ao finalizarem mais um ano de curso sobre ambientalismo nas cidades que percorrem, comemoraram com um churrasco.... céus!)
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A água das minas no Sítio das Estrelas é abundante e mais do que suficiente para nos banharmos, lavarmos toda a louça da cozinha e nossas roupas e nossas casas, para molharmos a horta, para prepararmos toda nossa alimentação.... Também existe o poço semi-artesiano que quase nunca é usado, apenas para encher o ofurô com sua água ferruginosa e medicinal.
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Eu poderia continuar a falar sobre a vivência na natureza no Sítio das Estrelas por mais tantas e tantas páginas!....

Porém, prefiro apenas dizer sobre o quanto eu amo viver sob o telhado do céu azul e das estrelas, dentro das paredes dos morros e pastos verdes, sobre o chão do gramado e da terra bendita.... Penso o quanto sou feliz em vivenciar o silêncio da natureza, em viver o aqui-e-agora com a plenitude da consciência desse mesmo aqui e agora, numa meditação contínua.... Penso em quanto sou feliz em poder presenciar o desabrochar das flores das mangueiras, das jabuticabeiras, sentir seu perfume intenso todas as manhãs, antes do sol quente, antes das abelhas chegarem.... Penso em quanto sou feliz em correr até o pomar depois das refeições para ter uma fruta como sobremesa... Penso que a felicidade é simples como comer jabuticaba no pé.... Penso em quanto sou feliz em ver que, ao final do temporal ou mesmo da chuvinha fina, abriu-se um buraco nas nuvens fazendo surgir um raio de sol que fez acontecer no céu um arco-íris. Fico pensando: devo correr até o final ou o começo do arco-íris atrás daqueles morros? Não, não preciso fazer isso, pois sinto que o Sítio das Estrelas é o meu pote de ouro!


Com um abraço estrelado,
Herói Azul



O Herói Azul
© 2008 Janine Milward